O milagre do beira rio

Aqui vai uma ode aos pessimistas.

Essa categoria que tão pouco se aprecia. 

E até se deprecia.

Se fosse um tempo atrás eu diria que o pessimismo é o deixar de ser e o otimismo é a única maneira para se viver. 

Que equívoco!

Durante as horas e dias que precederam o milagre do beira rio, o otimista de plantão encontrava-se aéreo, preocupado… e muito acertadamente poderia se declarar que deixara um pouco de ser. Ou até bastante, para ser mais preciso. 

E foi justo nessa conjectura que o pessimista pôde revelar toda a sua exuberância.

Vejam vocês, otimistas que aqui se encontram, e que tanto se orgulham de assim o serem… Reflitam comigo por um instante… Será que o pessimismo não está nos olhos de quem vê? Nos olhos dos otimistas que não suportam nada um palmo abaixo da própria excitação. As têmporas pulsam, os olhos ardem. E a garganta coça insistentemente. O otimista tem de tomar a palavra e espantar toda aquela falta de ser para longe de si. E o pessimista é muito facilmente espantável. Ele se encolhe, se encolhe, se encolhe… 

E pode, de fato, vir a deixar de ser. Para vocês, que otimistas são. Mas para ele próprio, ele sempre existirá. E num contexto de calmaria irá cultivar cada palavra, cada gesto, cada nota, que, por afobação, não pudera ser escutada pelo outro.

Como faria um artista da música ou da pintura. Um artista das palavras ou do palco. Um artista da bola ou do campo! Um artista arquibancada ou do canto.

Por dias, por messes… por anos até!

E ai então… por que não dizer… esses detalhes calham de se alinhar em uma bela melodia! 

“Que milagre!” Dirá o otimista, espantado.

Celebremos a arte diante de nós!

Como também se pode celebrar a sequência de passes que resultou no primeiro gol do flu. Ou na coincidência de toques de primeira que precedeu o gol da virada. Notas que por quase 90 minutos não se encontraram. Mas que no íntimo do pessimista sempre estiveram lá. E só puderam desabrochar quando todo o otimismo já havia se esvaído das arquibancadas. Eu pude ver, escutar, sentir… não me entendam mal… a convicção do otimista é bela, hipnótica, necessária! Porém, quando o pessimista tem tempo de cultivar, elaborar e compor… é que muitas vezes esse tempo não lhe é concedido… mas quando por acaso a sorte sorri para o pessimista… bem, aí temos algo como o milagre do beira rio. E centenas de adultos choram como crianças. Todos ao mesmo tempo. 

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