O ladrão e o profeta. Ep. 1

Nossa narrativa se inicia focada em um sujeito um tanto incomum que costuma perambular pelo parque do flamengo. Ele se apresenta como ladrão do flamengo porque tem, de fato, o hábito pouco apreciável de roubar dos outros que por lá passeiam ou se exercitam. Mas o faz de modo inusitado e até cômico, como atestaremos em breve. Antes, porém, vamos a descrição do nosso herói.

O ladrão do parque do flamengo não é alto nem baixo, tem as pernas e braços finos mas a barriga protuberante. A pele morena clara, olhos esbugalhados e longos cabelos negros. A barba intensa, e quase cheia, cobre uma mandíbula arredondada. Chama a atenção o sorriso simpático e torto que lhe corta o rosto de tempos em tempos. Muitas vezes, aliás, no curso de seus assaltos. Ademais, sempre usa a mesma vestimenta - bermuda jeans até a canela, tênis totalmente preto e camiseta branca de mangas pretas  com o Ozzy Osbourne estampado no peito. Faça frio ou sol, ele veste um gorro azul escuro com barra vinho que cobre só o seu cocuruto. As orelhas, ora ficam totalmente descobertas, ora são tapadas pelo cabelo que deriva do gorro. Ele não tem a aparência propriamente suja e leva jeito com as palavras. Ah… e está sempre carregando um frango amarelo de borracha que quando apertado faz sons estridentes. 

Agora vamos aos causos.

Em certa ocasião, o ladrão chegou junto de um sujeito alto e magrelo, que parecia estrangeiro, de fato iniciando a conversa por

         - Ei gringo, passa a grana!

O gringo brasileiro estava encostado em um letreiro que dizia ‘rio inovation week’ enquanto cortava as unhas com um unhex enferrujado, e chegou a ter um tremilique de corpo inteiro quando foi abordado. Depois se aprumou e começou em tom quase cantado:

- Eu não sou gringo nem tenho dinheiro. Só parei pra fazer xixi nesse letreiro e percebi o quanto minhas unhas estavam crescidas… então saquei meu corta unhas…

- Peeeennn - interrompeu o frango, que estava sendo agarrado pela mão direita do cabeludo. O ladrão logo voltou a atenção para o animal.

- Quer que eu coma a sua cabeça - ele disse em tom ameaçador, mas com certa graça. 

O frango gritou mais uma vez e isso o irritou definitivamente.

- Você é cego? Não tá vendo que eu to conversando com o gringo?

O frango não se intimidou e eles trocaram alguns insultos. Bate boca, este, que culminou em um ato de violencia do homem contra o frango, e não contra o suposto gringo, é bom que se diga. Acontece que este último também foi fortemente afetado, visto que o ladrão, já revoltado em sem nenhum resquício de graça no rosto, tascou o frango contra a cabeça do gringo. Promovendo, é claro, sons engraçados e fazendo o próprio ladrão rir enquanto desferia mais alguns golpes. O sujeito foi ao chão e o ladrão, empolgado, esqueceu da sua motivação inicial e deu dois ou três chutes desajeitados contra o corpo do homem. Depois, ajudou o gringo a se levantar e abriu um largo sorriso. Mas este não foi correspondido.  

- Faz o seguinte gringo - ele retomou já com a cara fechada - já que voce não tem grana nem graça, me passa esse letreito. Isso mesmo, vai!

- Mas como?

- Empurra até o meu carro! - ele disse fazendo um rápido movimento lateral com o braço que estava livre e por conta disso desequilibrou o corpo, que ficou a balançar por alguns instantes.

O gringo foi empurrar, sem sucesso, é claro, e o ladrão, junto com o frango riram bastante. O cabeludo chegou a se dobrar e estapear uma de suas coxas. Depois, se cansou daquilo tudo e abandonou a cena sem falar mais nada. O tal gringo, que foi o responsável por divulgar esse episódio, não pode ouvir o que se passava entre homem e frango durante aquela caminhada de saída, mas pode ver, com o bondinho do pão de açucar ao fundo (pelo menos assim ele descreveu) que o homem deu alguns tabefes no frango e depois avançou com a boca para, de fato, engolir-lhe a cabeça. Em seguida, é claro, cuspiu o animal de borracha e muito riu.

Em outra ocasião, também relevante para que o leitor se familiarize com a excentricidade do herói, deu-lhe na telha de assaltar com um livro. Bem fininho até, de Rubens Fonseca, e que tinha, ilustrado na capa, um revólver. É importante dizer que o ladrão andava sempre com alguns livros, misturados a outros objetos, em uma mochilinha azul claro de tactel. Ele mirou o livro em direção ao corredor, que parou assustado. Depois, chegou a rir, julgando ser alvo de uma brincadeira, mas quando notou que o ladrão falava a sério, se encrespou. Houveram algumas trocas de ofensas, nos foi relatado, e em seguida o ladrão sacou um revólver de fato. 

            - E esse aqui, você respeita?

O corredor respeitou, passou tudo que tinha, mas depois teve de contar, a todos que encontrava, sobre o inusitado roubo que lhe acontecera no parque do flamengo. Em meio a gargalhadas, é claro. Nessa ocasião, o ladrão já estava familiarizado com a própria arma, mas reza a lenda que na primeira empreitada que se propusera a realizar com esse artefato, ele já chegou atirando pra depois pedir o dinheiro. Quando viu que confundiu a ordem dos fatores, deu uma risada estridente, mas em seguida se consternou verdadeiramente. E botou a culpa no frango.

- Foi você que entrou na minha cabeça, eu nunca quis ter uma arma, nunca!

É possível que essa história tenha sido espalhada pelo frango ou algum transeunte que passava por lá. Também não é de se descartar que o próprio sujeito baleado tenha sobrevivido a confusão e contado a todos sobre este evento bizarro. Ademais, há relatos de que  nessa mesma noite o ladrão chorou um choro muito sofrido que ressoou por todo o parque. 

Um número muito frequente do ladrão, e este já nos foi passado por diversas fontes, é que ele gosta de abordar transeuntes com discursos filosóficos. Isto é, delicadas questões conceituais e de moral. Sobre anjos e diabos, sobre a vida e a morte… E independente da resposta do sujeito abordado, isso lhe causa um enfado tão grande, uma frustração tão insuportável, que ele termina por assaltá-lo com raiva. Depois ri às gargalhadas e sai saltitando pelo parque. 

Já aconteceu também, de ele ser flagrado lendo e dando de ler para o seu amigo frango. Quem contou foi um gringo verdadeiro, que sem saber da procedencia criminosa do homem e do frango, achou a cena muito curiosa e abordou o ladrão para uma conversa. 

- Of course, sit down - o cabeludo de gorro respondeu, e sacou da mochila uma grande ampulheta. 

O gringo riu e viu o seu interlocutor girar a ampuleta. Enquanto o gringo falava, em ingles, a ampuleta se esvaía e o frango piava, de tempos em tempos. Manifestação da qual o ladrão respondia virando a página para o animal de brinquedo. O próprio livro do Aristóteles, parado na mão esquerda do ladrão, não estava sendo apreciado, pois ele prestava uma atenção descomunal ao que o gringo falava a respeito do próprio filósofo grego. Por iniciativa do ladrão, que depois de convidá-lo a sentar, com grande simpatia, ficou sério e estabeleceu uma condição - que você me ajude a entender a metafísica de Aristóteles. Isso ele falou em inglês, naturalmente, como toda a conversa que se seguiu e que culminou com uma revelação que seria sombria se não fosse tão engraçada. É que depois de muito discutir sobre a abordagem de Platão e Aristóteles sobre a alma, o gringo perguntou sobre a alma do próprio ladrão. Pergunta da qual ele respondeu, com aquele sorriso torto, que havia vendido a alma pro diabo. O gringo, achando tudo muito divertido, perguntou quanto ele teria faturado nessa transação. 

- You can’t believe… For a chicken! - ele arregalou os olhos esbugalhados e escancarou o seu sorriso mais um bocado. 

A galinha, ou frango, de fato cacarejou muito alto bem nesse momento, e o ladrão se virou pra ele furioso.

- Cala a boca!

Mas o frango não calou…

- Engole esse livro, pronto, engole esse livro! 

O ladrão deu uma livrada que fez o frango voar longe e que também afetou a estrutura da ampulheta. Esta não voou pra longe, mas emitiu um som agudo e teve a câmera superior espatifada. Toda areia já havia se esvaído para a parte inferior, é verdade, mas isso não impediu o ladrão de se entristecer fortemente. 

- Ah quer saber gringo… me passa a grana, money, all your money now!

O gringo ficou chocado e não soube como reagir. Mas depois de ser apresentado ao revólver, sacou do bolso um bolo de dólares e entregou ao ladrão. Que brilhou os olhos como se estivesse vendo ouro.


Todos esses eventos foram relatados com  o intuito de preparar o leitor para um encontro que muito profundamente impactaria a vida desse ladrão. E é aí que nossa história de fato se inicia. Em um dia ensolarado de inverno, um sujeito mais baixo que o ladrão, e com a aparência mais suave, andava despreocupado pelo parque. Coincidentemente, ele também tinha cabelos longos e negros, porém menos vastos e desprotegidos por qualquer apetrecho que se poderia levar à cabeça. Sua mandíbula também estava desprotegida e apresentava mais arestas quando comparada com a do ladrão. Ele usava uma bermuda jeans que, assim como a do ladrão, ultrapassava os joelhos, e uma camiseta de manga comprida quase toda branca. Com algumas manchas de sujeira, é verdade, e uma estampa amarelada difícil de se assimilar. Porém, seu rosto plácido dava a impressão de ser muito mais limpo do que o ladrão, que por sua vez estava prestes a abordá-lo.

            - O pirilampo, passa a grana!

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