Arquibancada

Tem jogo que não se ganha em campo, mas sim na arquibancada. Tem jogo que não se discute escalação, se ordena do coração. De coração em coração, algo de muito parecido, mas ligeiramente distinto. E uma pequena arritmia se propaga pela torcida. Um sentimento praticamente uníssono, quase que saboroso, mas também tão ruidoso quanto se dever ser o arfar de um pulmão composto por milhares de indivíduos. Ruído este que poderia causar desconforto para com o técnico que de fato escala o time. Ocorre, no entanto, que o técnico em questão havia sido expulso no primeiro jogo da final e nesse dia de domingo teve de arrumar uma maneira não canônica para assistir ao espetáculo. Contra todas as recomendações, ele se acomodou, secretamente, bem no cerne da torcida tricolor. Ali mesmo, na arquibancada, bravo como todos ao redor. Com um boné grená, uma barriga proeminente estufando a camisa verde e o rosto camuflado pelo pó de arroz. Abundante neste domingo. 

Vitória Fluminense, ele não conseguiu impedir a si próprio de berrar assim que a bola rolou. Vitória, Fluminense, fez coro um rapaz ao seu lado de maneira instintiva. E por conta disso recebeu um olhar de gratidão do homem camuflado. E também muitas risadas dos torcedores ao redor. Algo de prazeroso se formou no coração daquele jovem torcedor. Uma confiança total se espalhou por todo o seu corpo. 

Vitória, Fluminense 

Vitória, Fluminense 

Rapidamente o grito se alastrou pela arquibancada. E os tambores trataram de dar ritmo àquele fenômeno.

Uma batida grave junto com a segunda sílaba da palavra ‘vitória’ e depois novamente no ‘nen’ de fluminense. Ademais, batuques metálicos compunham o restante da prece que a torcida tricolor propagava pela arquibancada. O primeiro carrinho, o segundo, a prece era transbordada ao campo. Ninguém mais lembrava da escalação. O time não sentia falta do treinador nem de nada. Os jogadores eram conduzidos, automaticamente, pelo pulso vibrante da arquibancada. Que, por sua vez, amplificava, sem saber, a melodia que brotava das entranhas do próprio técnico do time. Um golaço, dois golaços! Vitória Fluminense Vitória fluminense vitória fluminense. Três gritos guturais foram ouvidos e a bateria se calou de uma vez. O suor se confundia com lágrimas que cortavam o rosto daquele homem, e se descortinou um apaixonado tricolor. Já muito menos camuflado e que fazia tremer o corpo todo enquanto buscava passar algo de novo. Algo ligeiramente distinto do que se versava até então, mesmo que as palavras fossem as mesmas. Ele foi até o baterista principal, agarrou-lhe o braço direito e, olhando com afinco aos seus olhos, gritou mais uma vez como se a vida dele dependesse disso: Vitóóóóóóóória fluminense! Seus dentes cerraram e os lábios tremeram convulsivamente. Úmidos de uma saliva viscosa! Vitóóóóória fluminense, vitóóóóóóória fluminense, vitóóóóória fluminense! O baterista repetiu três vezes de modo ainda mais primitivo. Sem que uma palavra sequer fosse alçada boca a fora. O tambor grave se apresentou logo no ‘v’ de vitória e a sílaba tônica se mostrou tão aguda como eterna por intermédio dos pratos de ferro. Que eram postos a tremular na exata frequência que o rosto do treinador ensinara. Este respirou fundo duas vezes, fez que sim com a cabeça e voltou ao seu lugar com alívio. O garoto ao seu lado sorriu um sorriso muito jovial e logo se alçou ao coro junto com a torcida. Vitóóóóóóóóória fluminense. Os jogadores em campo não puderam deixar de sentir a instrução do treinador e continuaram a atacar o adversário impiedosamente. Veio o terceiro, o quarto. 

O técnico torcedor e tricolor perdeu a consciência. Por um minuto inteiro a bateria se calou e a arquibancada continuou a entoar. Vitória fluminense, vitória fluminense, vitória fluminense, vitória fluminense, vitória fluminense. Todos repetiam sem se preocupar com sincronismo. Quase todos iguais, mas ligeiramente diferentes, uma desmelodia deliciosa era saboreada por torcedores e jogadores. Que passaram a flutuar no gramado. Tenho certeza que nenhum deles sentia as pernas que o sustentavam. Algo de surreal carregava e norteava aqueles guerreiros através do gramado do maracanã. E eles se moviam com a beleza que só uma banda quase sincronizada pode nos trazer. O rosto já totalmente descortinado do treinador voltou a ascender e ele sorriu para o garoto ao seu lado. O resto todo mundo já sabe. O técnico foi lançado pela própria torcida. Da arquibancada ao campo. E lá pode celebrar, como tricolor apaixonado, dando cambalhotas de criança.


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