Se supõe que o 0 a 0 é o que pode acontecer de menos engraçado em uma partida de futebol. Pois o 0 a 0 de terça feira foi repleto de atrativos. O Fla flu de número 444 foi o primeiro jogado em copas do brasil. Foi também o primeiro fla flu em 20 anos em que o estádio estava majoritariamente tricolor (por pouco). E mais importante ainda, foi o primeiro fla flu em que eu não consegui ingresso pra ficar atrás do gol e acabei assistindo ao jogo no meio de campo. Cheguei 10 minutos antes de a partida começar e fiquei a adidmirar o duelo das torcidas. Sul vs norte. (quando estamos atrás do gol apenas escutamos a nossa própria). Com o estádio dividido, uma torcida impulsiona a outra e a alternância de cânticos se torna uma batalha de gogó. Ping pong que durou até a trágica aparição do hino nacional. Não há coisa mais anticlímax do que o hino nacional abafando a festa que as torcidas preparam para entrada em campo. Bandeiras rubro negras tremulavam mudas e o mar de pó de arroz não era capaz de carregar a melodia da arquibancada tricolor em direção ao campo. O hino reproduzido a um volume ensurdecedor terminou e as torcidas buscaram retomar o compasso. A tricolor ficou louca da cabeça e a flamenguista se inflamou logo que o juíz apitou o início de jogo. Um grito de poucas palavras e poucas notas se repetia incessantemente. “Vai pra cima deles mengo!” Os jogadores do flamengo aproveitavam o icentivo para exercer uma pressão avassaladora no campo de defesa do adversário. Como se cada jogador fosse um pistão de um motor muito bem regulado e movido pela combustão das arquibancadas. Já os do jogadores do fluminense pareciam atordoados com as flechadas pouco harmônicas vindo da arquibancada norte e mostravam dificuldade em praticar a habitual toqueira. Chances claras de gol se empilharam para a esquadra rubro negra. Eis, no entanto, que em uma parada fortuita, o técnico tricolor chamou todos os jogadores para a beira do campo e passou uma instrução que mais parecia uma senhora bronca. A torcida gritou o nome do comandante e depois se liberou a entoar a série de cânticos que os jogadores estão acostumados a escutar “Ó campão, eu vim te ver, e não importa mais nada…” “Nenseeeee, nenseeeeee, nenseee, nense, nense” os jogadores sentiram a musculatura destravar e passaram a se movimentar com mais leveza. “Tricolor em toda terra, amor igual não se viu… canta feliz a torcida do time, mais amado do Brasil…” passes certeiros eram disparados e duas jogadas perigosas foram geradas. Como numa terapia musical, a harmonia melódica da arquibancada colocou os nervos dos atletas em funcionamento mais próximo do ideal. “Ó meu mengão… eu gosto de você..” O lado oposto do maracanã respondeu e voltou a reger os pistões vermelhos e pretos dentro do campo adversário. Outras duas ou tres chances flamenguistas. O jogo ficou quase equilibrado, as torcidas ficaram extremamente equilibradas. As faltas não. Na virada do primeiro tempo, o flamengo já tinha o triplo de faltas assinaladas em relação ao fluminense.
Por ironia do destino, foi o fluminense que teve um jogador expulso, bem no inicio do segundo tempo. E a partir daí o que se viu foi uma torcida solidária. Os milhares de tricolores cantaram e abençoaram os guerreiros a jogarem por tudo e por nada. 0 a 0. O 10 técnico contra o 10 potente, o 14 argentino contra o 14 uruguaio... Há quem diga que nada fizeram todos os 4. Há quem diga, porém, que de tudo fizeram os 4. O 14 que é nove, o 14 que é 10, o 10 que é pop star e o 10 que é 10. Provocação, simulação, coragem, tabelas dentro da própria área, enfiada de trivela, chute do meio campo, passe de peito, dribles giratórios, agressão. Ainda assim ficou 0 a 0. E no meio de campo se ouvia, entre tricolores e rubro negros, que o time do flu era muito bravo. A torcida tricolor agradeceu aos céus pelo nada como se fosse tudo e cantou aos plenos pulmões que o time era guerreiro. Chegando em casa descobri que nada disso foi captado pelas câmeras e muito menos pelos microfones. Então tive que me sentar ao computador e contar eu mesmo - A história do 0 a 0 mais equilibrado das últimas décadas. No que tange ao placar, no que tange a bravura dos jogadores e principalmente ao brio dos torcedores.
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