Jasmin, the cat. ep. 1

    Era época de quarentena e tudo que se passava era amplificado. As discussões não eram escoadas em direção a rua… as discussões de casal se retroalimentavam por horas, por dias, às vezes por semanas... Descansavam por um período, mas de jeito nenhum se davam por esquecidas. Apenas esperavam o melhor momento para se fazerem valentes novamentes! E daí sodomizavam suas vítimas. Como bonecos ventríloquos, esse casal em questão se movimentava e gritava em profusão. Gestos ensaiados, mas que demandavam esforço absurdo de cada um. Como se estivessem eles, as marionetes, suportando, através de fios de aço, a sádica e manipuladora discussão! Carregada em um divã, enquanto deixava externar um sorriso de canto de boca e se abanava exuberante... a formosa discussão! Não mexia um músculo, seus bonecos fariam todo o esforço sem nem questionar. Ao contrário, se viam como privilegiados, e deliravam! Em busca do santo graal. Para um estranho que adentrasse àquela quarentena poderia até parecer que um ritual primitivo se passava por ali. Um ritual aborígene de repente, não para chamar a chuva, mas para chamar a volta da normalidade mundial! E de certa forma foram atendidos. Você, leitor, verá que entre tortuosidades características de uma estória que preste, esse objetivo camuflado fora alcançado com maestria! É que o ruído chegou à guela da criança.

    A criança há de ter visto, ouvido, observado… por horas, por dias ou até semanas... Essa criança tinha qualquer coisa no seu modo de se comportar, no seu modo de se dirigir aos adultos, de imitá-los…. Que levava os próprios a enchê-la de elogios em relação a sua inteligência. E ela, de fato, esperou o momento certo para, em uma rajada pulmonar... abrir o berreiro! A amplificação última de todo aquele atrito ensaiado por meses pelos pais… Uma assustadora, mas também bela, performance de uma criatura tão pequena. Após alguns segundos apenas, se podia sentir que havia mais dela do lado de fora do que de dentro. Um argumento enérgico e uníssono era dissipado para o mundo! E este, vejam só, carregado pelos adultos… frente a um escorregar de gestos, provou do próprio veneno e foi chupado pela gravidade em direção ao solo. Pronto… o mundo estava espatifado… o nosso planeta… quebrado em mil pedaços. A criança parou o argumento num repente, outros adultos chegaram correndo ao quarto apenas para ver o mundo que conheciam dilacerado e a criança, quase satisfeita, quase sorrindo, apontando para o culpado dessa atrocidade “foi ele, foi aquele adulto criança ali”. Em ato contínuo o adulto criança apontou o dedo para a criança criança e esta tratou de negar veementemente! Quase como uma adulta até. O adulto-criança, por sua vez, se abaixou e começou a recolher os destroços da terra. Não, não se trata de uma metáfora… é que o rapaz preservava em seu quarto, um enorme globo de acrílico! Ele quase não brincava com o globo, mas bastava uma criança aparecer que ele se alegrava por inteiro e se apressava em trazer o brinquedo para ser rotacionado. O adulto-criança tinha mais vários brinquedos espalhados pelo quarto, mas isso não o impediu de chorar genuinamente a perda deste que por tanto tempo representou o nosso planeta. 


Coube ao Aleci dourado, um homem campestre, a missão de consertar o Mundo...


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