Jasmin, the cat. ep. 2

       Coube ao Aleci dourado, um homem campestre, a missão de consertar o Mundo. Aleci não era dourado pela cor da pele mas sim pelos olhos! Sempre que uma missão desse tipo se oferecia a ele, seus olhos se douravam por inteiro e as mãos tremiam em ansiedade. Era assim que nós sabíamos que o acontecimento fora grandioso. Aleci dourado só brilhava quando presenteado por desafios cruciais à humanidade! E aí o contraste  entre os olhos e a pele marrom era  lindo de se ver. Seu rosto era bem magro e bondoso, o resto do corpo tambem era magro, se movimentava com leveza… escalava arvores, muros, cordas… caçava! Praticamente tudo que a família vinha a comer era, de alguma maneira, produto dos atributos corpóreos e astutos de Aleci dourado. Quando ele caçava  seus olhos haviam de se transformar em dourado também… Com toda certeza! Talvez até mais… ou um dourado um tanto diferente, como que misturado ao verde da vegetação… difícil saber… Só sei que ele partia em direção a selva empunhando sua lança impecavelmente prateada e voltava com a carcaça de um animal dependurada em um dos ombros. A carcaça devia pesar mais de 100 quilos, mas Aleci dourado não demostrava fazer força alguma. Ao contrário, voltava mais relaxado do que quando partia, totalmente satisfeito com a própria solidão. Mas se alguém ousasse oferecer ajuda ele aceitava e abria um sorriso quase risonho enquanto percebia a dificuldade do adulto criança em segurar as pontas. "Qual é seu segredo Aleci dourado?" "ih já cacei muito desse bicho lá em Cavalcante…". E continuava "isso aqui não é nada, você precisa de ver o ratão que eu peguei onti desnoite" "ratão!? Isso aqui é bem maior que um rato" "moço… esse rato eu já tava querendo pegar faz uns dois mês" "como que cê pegou ele?" "Esses ratos são esperto demais, só com armadilha pra pegar eles" "não dá pra pegar na lança não?" "Ixe, eu passei uns fios ali no galinheiro, morreu frito o bichinho" "Quá quá quá... você comeu?" "Comi nada moço" Aleci dourado não falava muito, mas quando falava também não parava "eu gosto mesmo é de comer ave" "é?" "Esses bichos que eu caço, que vcs comem aí… capivara… veado…. Eu não como não" "ave é bom mesmo" "esses dias eu vim um marreco azul esvoando lá na mata… lá no alto" "marreco azul?" “é, aquele pato que voa bem alto, que tem umas penas longas…” “hum… pegou ele?” "ixe, não tem como… eu subi lá encima da árvore e saltei, mas não consegui alcançar ele não…” “Você saltou de cima de uma árvore? Qua quá quá”. “Foi, fui até a ponta do galho e mergulhei com tudo…” Aleci dourado respondeu sem rir “E você não se machucou não?”. “Nada, eu caio sempre em pé” E fez um gesto com as mãos espalmadas pra frente. O adulto criança olhou pra ele desconfiado e, através dos membros superiores do homem, se exibiu um olhar de lince. "Escuta Aleci dourado!" - o garoto bradou apressado - "sobre o globo que se espatifou…" - mas já era tarde, restou a ele assistir Aleci dourado largar a carcaça no chão e partir voado em direção a mata. Como se tivesse sido atraído magneticamente por alguma caça que passara por eles. E é capaz que de fato algum bicho tivesse cruzado o caminho dos dois, mas isso não havia sido percebido pelo garoto. Durante o curto período em que se deu o abandono da conversa, uma variedade surpreendente de sentimentos atravessou o rapaz. Em primeiro lugar, ele ficou genuinamente admirado pela transformação do homem lince. Ali havia algo de distinto. Não eram só os olhos que haviam mudado de cor. O corpo como um todo deixara se deformar um bocado, pensou o rapaz. Como se fosse pressionado pelos arredores a se tornar mais aerodinâmico, menos titubeante! É isso mesmo, o Aleci dourado que conhecemos exala uma mansidão…. Não tem outra palavra, titubeante! O Aleci dourado que acabara de sair em debandada exibia certeza absoluta! Nos olhos, na expressão do rosto… e também no corpo! Passado este primeiro momento, o garoto se viu desiludido e principalmente frustrado consigo próprio. É que o rapaz não suportava a ideia de estar se aproveitando da situação para chegar a um objetivo tão egoísta como o concerto do próprio mundo. Mas não era só isso… ele chegou a se irritar consigo próprio por levantar esse objetivo justo no momento em que se poderia facilmente adivinhar que a conversa seria logo logo abandonada. Por fim, a mais forte sensação de mistério se alojou na alma do rapaz. E ele quis correr para longe dali. Ele quis estar longe do mato, ele quis estar rodeado por prédios, por pessoas comuns… por carros… E isso o irritou profundamente. O irritou tanto que, num repente, ele pôs a pesada carcaça em cima do ombro esquerdo e marchou determinado em direção à casa.

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