A lança que Aleci dourado usava, ele lavava enquanto assobiava uma composição própria. Cada dia uma diferente. Mas nem por isso bonitas. Também não chegavam a incomodar… ou quase nunca incomodavam… mas as vezes, quando a caça demorava mais do que o comum para ser alcançada e a família se via com fome no cair da noite… o assovio moroso ficava extremamente agudo aos nossos ouvidos famintos. Sim, ouvidos famintos! Uma boca faminta pode se resolver com alto grau de imediatismo, mas um ouvido faminto… ou até dois…. Ahh meu bom deus, é pura angustia! O máximo que eles podem fazer é muito pouco, ou quase nada. Então acabam por não fazer nada. Mas aí é que está… emburrecem e perdem toda a vontade de trabalhar. Peça a ouvidos famintos para se atentarem a uma estória não tão bem contada ou de repente uma melodia mal ajambrada… E sentirá o tumulto que eles irão arrumar ali nos flancos de sua cabeça! Uma dor de cada lado ecoará durante o tempo necessário para atingirem a ressonância inconfundível da ira descabida! Mas nunca ninguém ousou levantar uma vírgula às composições de Aleci dourado. É que éramos todos adultos e os que não eram, eram astutos.
Aleci dourado que nasceu no mato sem ser semeado não tinha medo de nada. A única ressalva? “Cachorro eu não mato, senhora”. “Mas por que cargas dágua eu iria te pedir pra matar um cachorro Aleci dourado?” Aleci dourado riu desviando o olhar. Riu não, sorriu. Um sorriso sóbrio que deixava transpassar algumas ondas sonoras surpreendentemente agudas. Ninguém nunca entendeu nada daquilo, mas eis que de uns dias pra cá, depois de o mundo ter se espatifado diante de nossos olhos, Aleci dourado deu de ir a mata junto com o cachorro pastor. Quase sempre desacompanhado de lança. E voltava quase sempre desacompanhado de caça… Isso perdurou durante tempo suficiente para que a familia tivesse que mudar seu hábito alimentar. Sopas de cebola, cenoura… beterraba… viraram cardápio padrão. Sempre acompanhado de torradas provenientes de pães que a mãe fazia pela manhã. A mudança de cardápio causou uma euforia surpreendente ao pai! Quando o relógio batia 5 da tarde ele corria para abrir uma garrafa de vinho e colocar uma poção para ferver. Muitas vezes ele derramava um terço da garrafa na panela e tomava os outros dois terços antes mesmo do resto da família se apresentar. Quando tratávamos de picar os últimos ingredientes pertinentes à refeição, mais uma garrafa costumava ser aberta e quando finalmente vínhamos a sentar à mesa, a conversa que costumava se desenrolar era um tanto periclitante. Alguns membros da família admiravam esse temor, outros recuavam à quietude. Uma faísca aqui e ali surgiam com o intuito de suprir a necessidade de proteína, pensou um dos membros da família que pouco se expressava durante esse período. E chegou a tentar expor esse raciocínio. Mas não obteve sucesso e voltou a zona de confortável silencio. Enquanto isso, Aleci dourado e o pastor perambulavam pensativos pelo terreno… Durante esse período marcado pelas sopas, nenhuma nota sequer se ouviu transpassando os lábios do nosso herói. Acontece que o inverno estava apertando, a fome estava apertando, o mundo estava se acabando… e nada nos fazia crer que Aleci dourado se aproximava de alcançar êxito em sua ingrata tarefa. Foi nesse cenário que, em uma noite de sopa de cebola, um personagem essencial da família emergiu! Não era o pai, a mãe, nem um dos filhos, mas sim o quadro!
Um ótimo quadro! Em algum momento… mas eis que uma torrada lançada e junto com ela uma maldição. A torrada lançada pela filha irada acertou em cheio ao quadro. Sem estrago aparente, mas o desencadear de acontecimentos irá convencer a mãe do contrário. Um ataque de fúria improvável daquela menina tão calma e o quadro parou de evoluir, estancou e dia após dia perdia em beleza. Mas por que estancou? Perguntava o pai. Por causa desse maldito tempo, é esse maldito tempo que não me deixa pintar mais, respondia a mãe. Furiosa, furiosa, ela nem de longe era tão calma como a filha e suas fúrias não viriam a afetar o maldito tempo, mas estavam lá. Mais confortáveis, mais assanhadas junto com a tempestade.
Uma inspiração veio a tona pelas palavras do pai: - Esse quadro é onipresente, por isso tá estancado! - Já ai a tempestuosa fúria da artista se viu solta, e em surda transformou sua vítima, enquanto o pai, sem nada desconfiar, continuava - Onipresente, onipotente, um quadro não pode falar sobre tudo e todos ao mesmo tempo, um quadro não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Tu tens de afunilar. Aliás, nada pode falar de tudo, não é só o quadro, não é só a arte… eu gosto muito da casa de Veronese, mas eu não queria um trambolho daqueles aqui em casa…
E eis que uma ideia se aventurou boca a fora da mãe: - Eu vou adotar um gato - ela vociferou sem um pingo sequer de hesitação. Da mesma forma fez coro um furioso trovão e se pode ouvir uma miada. Era Jasmin. Mas ela viria a ficar conhecida por Jasmin the cat.
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