Jasmin, the cat - episódio final

 E eis que uma ideia se aventurou boca a fora da mãe: - Eu vou adotar um gato - ela vociferou sem um pingo sequer de hesitação. Da mesma forma fez coro um furioso trovão e se pode ouvir uma miada. Era Jasmin. Mas ela viria a ficar conhecida por Jasmin the cat. 

Se passaram 13 dias e 13 noites em chuva. Se passaram conversas intermináveis, miadas insaciáveis. E acima de tudo, uma espécie de relação fantasiosa com a gata. Cada membro da família criara um vínculo póprio com aquela gata que apresentava qualquer coisa de mágica, qualquer coisa de surreal no jeito de agir, no jeito de miar e até no jeito de se colorir. Quando tinha com o pai em seu gabinete pairava como uma gárgula cinzenta junto à escrivaninha, podia se passar todas as horas da manhã com os olhos cerrados e sem miar uma só vez. Jasmin, the cat saia apenas quando o relógio tocava meio dia, daí ela inspirava três ou quatro raios solares e caminhava saltitante até o quarto da filha. O caminho reservava uma mutação extraordinária para quem se prestasse a observar. A cada salto de Jasmin, the cat, uma ou duas mechas douradas surgiam em seu pelo longo. E quando ela completava o último degrau da escada, deixava exalar uma miada alta porém metálica. Não sei ao certo o quanto disso é fantasia, mas na minha cabeça esse último salto de escada, embora em subida, deixava de se qualificar como gravitoso e permitia que ela subisse a uma altura correspondente a dois degraus para depois cair no segundo andar da casa com as quatro patas sincronizadas. Imagino que pra ela haveria de ser um andar de baixo, não sei. Sei que em sincronia com as quatro patas rajadas de dourado surgia sempre o miado enferrujado e também um novo penteado. Seus longos cabelos, agora cinza-dourado, se esvaiam ladeira acima, como se estivessem banhados de gel, porém secos secos. E empuerados, como um de um mendigo. Jasmin caminhava em direção ao quarto da filha para mendigar alguma coisa.

Difícil saber o que se passava ali dentro, mas daí a 5 minutos a filha vinha a sair do quarto seguida de uma gata já com um penteado mais sóbrio. E também um pouco menos dourado. O mais impressionante: A filha que fora sempre marcada por um humor sepulcral pela manhã, nessas duas semanas deu de sair do quarto cantarolando! As vezes assubiando, as vezes rodopiando... juro que uma vez a vi sair do quarto dando uma cambalhota seguida de uma descida radical pelo corrimão da escada. Jasmin, the cat vinha atrás com um andar tortuante e o rabo impinado. O mais inacreditável de tudo, no entanto, ainda estava por vir. A gata tinha uma relação especial com a mãe, uma relação um tanto quanto sonora, um tanto quanto ventral. Deixe-me tentar explicar de uma forma formal, se é que é possível. 

Jasmin, the cat, viria a sair, invariavelmente ela saia. Quando todos se sentavam à mesa, ela se julgava liberada para se encarregar da própria refeição. Um desses dias eu fiquei observando a casa com atenção e pude verificar que a gata fica fora por pelo menos um terço do dia, o último terço do dia. Quando a noite cai ela volta, e raramente volta sozinha. Em um desses dias dessa semana chuvosa ela saltou para dentro da casa com os pelos longos extremamente molhados e trazendo na mandíbula um enorme faizão azul. Mas ela também se apresentava enorme, o seu pelo absorvera água de tal maneira que a gata devia ter ganhado uns 15 quilos e ao menos 1 metro quadrado em dimensão. Apenas a mãe viu essa cena. E recebeu de presente o faisão. Um tanto quanto atordoada, proferiu em tom de questionamento "Jasminoca..." A gata pesada, encharcada e enorme não pensou duas vezes - se derreteu junto ao chão como uma manteiga em contato com a chapa quente. Primeiro com o ventre para cima, depois rodopiando... procurando como que se secar no chão gelado, e parecia funcionar. A cada manteigada no chão seu tamanho diminuia um pouco e a mãe ecoava com mais confiança "Quem é a gatinha mais linda" "Quem é...". "Quem é jasminoca linda". Nesse exato momento a filha dobrou o último degrau da escada e se atentou a corrigir a mãe: "É jasmin, the cat". A mãe tomou um susto e num golpe de agilidade pegou o faisão morto pelos pés, jogando-o dentro de seu avental. "Por que tudo pra vocês tem que ser composto… Aleci dourado, Jasmin, the cat… eu devia ter dado nome composto pra vocês! Queria ver se iriam gostar"

A filha riu. E na sequência… acreditem se quiser… a gata caiu na risada também! Uma risada tímida e tiritante. Com agudos pontuais se destacando a partir de um sorriso mudo. A mãe e filha olharam para aquela cena em conjunto, depois se olharam felizes… muito felizes! 


Coincidência ou não, no dia seguinte se fez sol inspirador e a mãe terminou, de uma só vez, o quadro que ela chamou de Aleci dourado.


Comentários