Em um mundo onde quase tudo é automático, temos de celebrar o sujeito que domina plenamente a arte da embreagem. Este é Jhon Arias. Sem escudo de metal com o qual se proteger, Jhon arranca por uma estreita faixa de campo entre a linha lateral e um batalhão rubro-negro. Enquanto a metade esquerda do seu corpo fica a tatear a aproximação dos adversários, a bola está irremediavelmente colada ao pé direito e mais próxima ao limite do campo. Ademais, ele passa as marchas com agilidade e de quando em quando gira o pescoço para fazer contato com os marcadores. Em uma dessas espiadas, Jhon solta um sorrisinho de canto de boca e afunda o pé esquerdo na embreagem. O motor ventila um ar muito quente e que se dissipa rapidamente por todo o estádio. Qualquer coisa de inebriante, de hilariante… Com uma ginga maliciosa de quadril, o condutor da pelota ameaça engatar a ré. Mas como? Sair da quarta marcha direto pra ré? Os torcedores atrás do gol creem que é possível. Afinal de contas, tudo que eles fazem é crer. Crer nos seus craques, crer nas viradas, crer nos títulos e nos milagres. Os próprios defensores, perturbados pela ânsia vinda da arquibancada, não vêem outra saída senão crer. E aí é que o craque, num golpe de astúcia, engata a quinta marcha e solta a embreagem com uma delicadeza poética. Notem, em momento algum ele tirara o pé do acelerador. Apenas maquiara, ou embreara, a própria potência se utilizando do molejo da sua perna esquerda. Dois marcadores ficam pra trás catando cavaco. Mas o terceiro é astuto o suficiente pra se manter colado à jogada. Não demora e um quarto se junta a ele. O Fluminense tem um jogador a menos, ninguém se aproxima do craque. O colombiano mais amado do Brasil tem de pensar rápido. Ele pisa na embreagem novamente. A bola está próxima do pé direito, o pé capaz de acelerar. Mas ele não acelera, ele solavanca a segunda marcha e solta o pé esquerdo até a metade. O motorzinho do flu faz ressoar um barulho desconfortante, esquizito. Agora já era pra ele, pensam o defensores. Jhon corre meio que balançante… como se tivesse um pneu furado e fizesse um esforço colossal para continuar em movimento. Ainda assim consegue proteger a redonda. Depois ameaça puxar o freio de mão, tira o olhar da estrada, recebe algumas buzinadas. Sua própria torcida se angustia. A essa altura, aqueles primeiros marcadores já haviam se recomposto e passam a promover uma marcação quádrupla no craque. O grupo se aproxima da bandeirinha de escanteio, não tem mais jeito, é questão de tempo pra que ele perca a posse de seu objeto precioso, todos no estádio pensam o mesmo, os marcadores, os torcedores, até mesmo os companheiros.
Ocorre, no entanto, que a bandeirinha de escanteio representa, para o colombiano, uma curva em sua trajetória, e se tem uma coisa que os magos da embreagem apreciam mais do que tudo é uma boa curva! Eu próprio só vejo uma explicação para isso; Na cabeça do gênio não há nada mais saboroso do que uma linha que não se comporta como linha mas sim como um contínuo equacionado por um número que não existe. O próprio pi. Enquanto a maioria de nós sente uma angústia poderosa diante de uma equação que não acaba, o gênio faz daquela falha, um tobogã no qual ele desliza… feliz, muito feliz. E como num passe de mágica se teletransporta para um outro momento. Um “uaaaaauuuuuuuuuu” percorre as arquibancadas do maracanã. John Arias brota, do nada, na marca do pênalti da área rival. Aos 45 minutos do segundo tempo, com a bola debaixo do braço e mirando o goleiro equatoriano como quem encara de peito estufado seu maior medo. Difícil saber como e porquê ele aparecera ali… mas arrisco dizer que tenha sido um truque de embreagem e aceleração. Qualquer coisa que faria outra pessoa tropeçar e cair fundida de cara no chão. Mas Jhon não enxerga a linha como um conjunto de pontos, ele pode muito bem acelerar o corpo de modo a percorrer 100 pontos em poucos segundos. Fazendo com que esses 100 pontos se tornem 3 ou 4 e confundindo por completo o coitado do marcador. Logo em seguida, no entanto, ele mostra uma sequencia de movimentos tão lentos que algo de gelado transpassa a espinha do torcedor. Como se estivessem enxergando uma forma de vida distinta, um alien ou um mutante! Capaz de colocar o corpo a se mover em um ritmo quase que inerente à gravidade. 2 ou 3 pontos, vistos pelo goleiro, se tornam 30 ou 40 momentos distintos para o próprio ser mutante. Isso lhe dá tempo! lhe dá tempo de soltar a embreagem como lhe for conveniente e de repente acelerar sem que lhe encontrem. A rota que o craque cria faz com que ele possa se transportar do ponto que só o próprio habita, para um ponto futuro. Quando a bola já estufou as redes e a torcida entoa em êxtase: “Ole ole ole ola, Árias, Árias”. Depois ele volta… ele volta 16 anos pra trás e escuta, junto com toda a torcida, o maraca cantando “Ole ole ole ola, Conca Conca”. Enquanto o argentino percorre um longo caminho desde o meio campo até a marca do pênalti, e sofre para encarar um outro goleiro equatoriano. John Arias pisca os olhos demoradamente e avança dois passos de um tango tão lento quanto dramático, “Essa ginga é pra você hermano”, ele sussurra de si para si, e fica estático quando a torcida começa a entoar um terceiro cântico “A benção, João de Deus, a benção, Jhon de deus (ele escuta limpidamente), nosso povo te abraça”. O colombiano se sente acolhido, abraçado, tão confortável que por um momento esquece o porquê de estar ali parado diante da redonda. Enquanto a 7 metros dele, o goleiro treme as pernas sem saber pra que lado pular. Jhon Arias sorri um sorriso maroto e faz o próprio corpo gangorrear mais um tanto entre passado, futuro e presente. Ele assiste da arquibancada a quase redenção do Flu na final em 2009, depois salta para 95 e pula com milhares de torcedores logo que a barrigada do Renato estufa as redes. Ele ainda tem tempo de versar, junto com Assis e Washington, o bicampeonato em cima do flamengo e rever a bomba de seu xará JK contra o boca. Tudo isso ao som daquela música que hoje ele tinha certeza ter sido feita pra ele! Ele, Jhon Árias, o ídolo tricolor, sabia em seu âmago que achara o momento exato em que sempre quisera estar. Ou talvez fosse mais um nicho do que um momento. Ele encontrara um atalho no gramado do maracanã. Naquela vegetação verde e doce que tantos outros já pisaram. Mas nunca ninguem havia visto. Na realidade nunca ninguém havia criado. Jhon Arias está dentro da área rubro negra e a bola continua rolando.
O jogo acaba e o canto da torcida continua ecoando. Os tambores deixam as arquibancadas e a alegria continua tamborilando. Agitado, incontido, um torcedor arremessa seu copo meio cheio de cerveja com toda a força em direção ao teto. Quase ninguem viu, mas se houvessem visto notariam a trajetória daquele objeto, com uma pequena indentação previamente realizada em um ponto da linha circular que constrói a sua boca, com admiração de quem presencia um milagre. Calhou de o copo viajar como um foguete na vertical e se agarrar ao teto justamente através daquela indentação. O próprio torcedor que jogara o copo, ensandecido, nem notou a façanha. Mas o copo continuou lá por um bom tempo. Agarrado ao teto e represando alguns goles de cerveja no seu interior. A bandeira passou, os tambores passaram e o copo continuou. Meio cheio.
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