Eu não sou profeta
Mas a carne é fraca
e o coração tá de dieta
Pra ele te engolir de novo
É muito pouco, quase nada
Basta um cheiro, uma brasa
Uma flecha atravessada
Pelo cupido zombeteiro
Esse surfista de asfalto
Em pleno rio de janeiro
De flechada em flechada
De rasante em rasante
Viu as asas derreterem
E chorou o mês inteiro
Depois perambulou
De bar em bar, de mês em mês
E até se acostumou..
não fosse o carnaval
O ícaro…..
Eu te dou alas de prata
Se você me prometer….
Ouça bem o que eu te digo
O passado é passado
Como cera derramada
Estatelada e lambida
pelos carros da cidade
E o profeta, um artesão
De dedos quentes, palma fria
Que do asfalto faz nascer
Uma linda poesia
Sobre um futuro encantado
Para mim, para você
Um deus grego bem alado
E nervuras de monet
Mas nada disso é pra valer
São só alegorias
Caricaturas embaçadas
Que longe da melodia
Não tem alma nem querer
Passa março, abril e maio
E o resto do ano se esvai
Mas quando volta o fevereiro
Brotam de novo as miragens
Os profetas e os anjos
Ganham alma de criança
E nos fazem crer enfim
Na mais doce lembrança
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